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Transfusão de sangue em gatos

Assim como em humanos, os gatinhos podem, muitas vezes, necessitar de uma transfusão de sangue, mas você sabe como isso de fato é realizado? Você acredita que gatos também possuam diferentes tipos sanguíneos? Essas e outras questões você confere agora nesta matéria.

Tipos de transfusões 

Dependendo do problema que o gato apresenta ele pode necessitar de um tipo específico de transfusão. Apesar de ser possível separar os componentes do sangue, hemácias, plasma e plaquetas, para uma transfusão, nos gatos o mais comum é que a bolsa contenha todos os elementos juntos (sangue total). Isso porque existem uma série de dificuldades na prática de transfusão de sangue em gatos, como na coleta e no armazenamento das bolsas.

As transfusões de concentrado de hemácias, que como o próprio nome diz, é uma bolsa com glóbulos vermelhos numa concentração maior do que no sangue total. Ela é indicada para animais com anemias crônicas ou hemorragias agudas. Gatos com doença renal crônica, micoplasma e leucemia viral (FeLV) são candidatos comuns a receberem concentrado de hemácias ou sangue total, pois comumente apresentam anemia crônica.

As bolsas de plasma são aquelas que contém o componente fluido do sangue que é rico em proteínas, como a albumina, por exemplo. Esse tipo de transfusão é indicado quando o gato apresenta baixos índices de albumina, o que costuma ocorrer em doenças crônicas, como linfomas, por exemplo.

As bolsa de plaquetas são indicadas, naturalmente quando os gatos estão com os índices de plaqueta no sangue muito baixos, porém, é preciso ter cuidados nessas situações, uma vez que é comum esses índices estarem erroneamente baixos nos exames de laboratório. Isso porque as plaquetas dos gatos costumam agregar muito durante uma coleta de sangue mais dificultosa. Quando os valores de plaquetas estão verdadeiramente baixos, damos o nome de trombocitopenia e isso pode causar sérios problemas de coagulação do sangue, causando ou piorando hemorragias.

Exames de sangue

Para saber se de fato um animal precisa receber uma bolsa de sangue o médico veterinário precisa fazer alguns exames de sangue, além, claro do exame físico durante a consulta.

O hemograma é o exame mais comum e mais completo para detectar anemia nos gatos. Ele indica a quantidade, porcentagem (hematócrito) e o tamanho dos glóbulos vermelhos, a quantidade de hemoglobina no sangue (que é a proteína que transporta oxigênio dentro das hemácias), a quantidade de proteínas totais e também de células brancas e plaquetas no sangue. Com o hemograma em mãos é possível descobrir se um gato precisa ou não ser transfundido e ele também é realizado depois da transfusão como controle. Além disso, o hemograma também é feito no gato doador para verificar se este pode doar e qual a quantidade de sangue que necessita ser coletada.

Os valores normais do hematócrito para um gato varia de 25 a 45%. Valores abaixo de 10 a 15% pode ser que a transfusão seja indicada.

Outros exames que podem ser necessários são a quantidade de albumina no sangue e a contagem de reticulócitos, que são hemácias jovens que podem ou não indicar se o corpinho do gato está sendo capaz de compensar ou não sozinho a anemia.

Tipos sanguíneos e testes de compatibilidade

Os gatos possuem diferentes tipos de sangue, sendo eles: tipo A, B e AB. O grupo A é o mais comum, enquanto o grupo B é comum em algumas raças de pedigree. O grupo AB parece ser raro em todas as raças.

Apesar da maioria dos gatos no Brasil serem do grupo A (mais de 90%), é muito importante que seja feito um teste de compatibilidade antes da transfusão. Esse teste é feito com a mistura de um pouco de sangue do doador com do receptor. Caso o teste demonstre qualquer sinal de incompatibilidade entre as amostras, a transfusão não deve ser feita. Gatos podem morrer durante uma transfusão devido à produção de anticorpos contra as hemácias do doador. O teste de compatibilidade ajuda na prevenção dessa reação.

Gatos com tipo B possuem muitos anticorpos contra sangue tipo A, mas o inverso também pode ocorrer

Recentemente, um segundo sistema de grupo de sangues em gatos foi identificado. Os gatos podem ser Mik positivo ou Mik negativo e transfusões incompatíveis também podem causar reações graves, mas a frequência e o significado desde novo sistema ainda não estão totalmente claros no momento.

O doador

Apesar de ser possível encontrar bolsas de sangue para comprar em alguns bancos de sangue veterinários, providenciar um doador costuma ser o meio mais comum de se conseguir sangue para um gato. Nesses casos é importante salientar que não são todos os gatos que podem doar sangue.

O doador precisa ser testado para doenças que podem ser transmitidas, como micoplasmose, bartonelose, FIV e FeLV. Além disso, o ideal é que o doador tenha pelo menos 5 kg (não obeso), seja vacinado, livre de pulgas e carrapatos e que preferencialmente não tenha acesso à rua. É comum que nas clínicas veterinárias seja perguntado ao tutor se ele teria um outro gato em casa para doar sangue. Essa costuma ser a maneira mais rápida de se conseguir fazer uma transfusão.

Para doação o gato precisa ser sedado, pois geralmente são coletados aproximadamente 50 ml de sangue (a depender do quanto ele pode e do quanto se necessita). Para esse volume o gato não pode se mexer, então mesmo os mais dóceis precisam de sedação. Após acordar, o doador pode ir para casa normalmente.

A transfusão

Para que a transfusão seja feita é necessário que o gatinho fique internado na clínica veterinária. Ele recebe o sangue através de um cateter inserido na veia (geralmente no braço). O sangue pinga em uma velocidade bem lenta e pode demorar algumas horas. Durante o procedimento são aferidos os parâmetros do gatinho, como pressão arterial, temperatura, frequência cardíaca e respiratória. Tudo isso para verificar se o animal não está apresentando reações imunológicas, que podem ser leves ou graves e em algumas situações levar o animal à morte.

Após o procedimento, o veterinário verifica se o nível do hematócrito subiu como se esperava e, em algumas situações, novas transfusões podem ser feitas.

As transfusões de sangue em gatos estão cada vez mais comuns nas clínicas veterinárias. É importante o tutor estar bem informado para que compreenda a real necessidade de tal procedimento. Essas informações não substituem uma consulta veterinária e nem podem ser utilizadas como meio de diagnóstico. Procure sempre um veterinário.

Dra. Laila Massad Ribas

 

 

Laila Massad Ribas

Laila Massad Ribas

Possui formação acadêmica em veterinária, especialização em medicina felina e mestrado e doutorado pela USP.