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Raiva

Agosto é conhecido pelo “mês do cachorro louco” por uma série de fatos desagradáveis que ocorreram no passado nesse mês e também pelo aumento de cadelas no cio que, consequentemente ocasionam maior número de brigas entre os cães machos. Como a raiva é uma doença transmitida pela mordedura era comum nessa época do ano maior número de casos de raiva entre os cães.

Por conta disso, muitas prefeituras no Brasil instituíram a campanha de vacinação antirrábica no mês de agosto, mas você deve estar se perguntando onde entram os gatos nesta história. É muito simples. A raiva é uma doença viral que acomete o homem, animais urbanos e silvestres e, portanto o gato também pode adquirir e transmitir raiva.

Com o aumento da população de gatos no Brasil é fundamental entender um pouco mais sobre uma das doenças mais graves no mundo e que afetam tanto as vidas de cães e gatos quanto as nossas.

O QUE É RAIVA?

Raiva é uma doença infecciosa causada por um vírus neurotrópico (possui afinidade pelo sistema nervoso) chamado Lyssavirus e, por ser transmissível dos animais ao homem, é considerada uma zoonose.

PREVALÊNCIA

No Brasil, apesar de estar em decréscimo, ainda existem casos de raiva tanto nos animais domésticos quanto no homem. A região Norte é que tem mais casos de raiva humana, mas por causa da transmissão pelos morcegos.

Os programas de prevenção por vacinas em cães e gatos têm ajudado muito no controle da raiva em regiões urbanas e, cidades como São Paulo estão praticamente livres da doença, mas as regiões com maior população de animais silvestres ainda são risco para a transmissão.

TRANSMISSÃO

A forma de transmissão é pela saliva do animal contaminado, ou seja, mordeduras ou arranhaduras contaminadas com saliva são a principal fonte de infecção. Isso porque o vírus entra pela ferida na pele e musculatura, passa pelo sistema nervoso central e vai para as glândulas salivares.

Um gato começa a transmitir raiva para outros animais ou para o homem três dias antes dos sintomas aparecerem. Em ocasiões extremamente raras a raiva pode ser transmitida por objetos contaminados com saliva, como vasilhas de água e comida e não ocorrem transmissões pelo sangue.

Em áreas urbanas a atenção deve ser voltada para a transmissão de morcegos para gatos devido a seus hábitos de caça aguçados. Engana-se quem acredita que apenas os hematófagos (que se alimentam de sangue) podem transmitir a raiva. Qualquer morcego é capaz disso, eles são capazes sim de passarem por telas de proteção em apartamentos e existem sim morcegos nas grandes cidades, especialmente os que comem frutas e o que comem insetos.

Não importa quão alto é o apartamento um morcego é capaz e chegar e, talvez aqui seja uma das informações mais importantes, os morcegos também adoecem e isso faz com que fiquem mais frágeis e mais suscetíveis ao ataque dos gatos. Apesar disso os morcegos sempre tentam morder quando encurralados pelo gato.

SINTOMAS

O processo entre a entrada do vírus no corpo e sua chegada ao sistema nervoso (período de incubação) é relativamente lento sendo que nos gatos esse período ocorre em média entre 4 e 6 semanas.

Infelizmente quando os sintomas aparecem a doença é sempre fatal para cães, gatos e homens, com alguns raros casos no mundo de humanos que sobreviveram.

Existem duas formas clássicas de raiva, a furiosa e a paralítica, mas poucos dias antes da apresentação dessas formas os gatos passam por uma fase chamada prodrômica caracterizada por ansiedade, isolamento, febre, timidez, agressão ou irritabilidade.

Raiva furiosa – forma mais observada em cães gatos e humanos. Gatinhos apresentam salivação, tremores musculares, fraqueza, ataxia, anorexia, depressão, convulsão e alterações de comportamento, como agressividade e isolamento.

Forma paralítica – mais observada em animais não carnívoros, como morcegos, herbívoros e omnívoros, mas os gatos podem passar da fase prodrômica diretamente para essa fase paralítica e apresentam paralisia de membros posteriores e anteriores, coma e morte.

Em humanos o medo de água (hidrofobia) é um sintoma muito observado e se deve à paralisia da musculatura da garganta que faz com que a pessoa não consiga engolir água nem saliva.

Infelizmente a raiva é 100% fatal para os gatos em poucos dias após o início dos sintomas.

DIAGNÓSTICO

Nos gatos os sintomas são a principal forma de diagnóstico precoce, especialmente se ocorridos após uma mordedura, entretanto o único teste totalmente conclusivo é a necropsia com avaliação do tecido cerebral por um teste chamado imunofluorescência direta.

TRATAMENTO

Não há tratamento para raiva nos animais e por questões humanitárias é recomendado que eles sejam sacrificados (mas somente por um veterinário).

Aqui no Brasil todo veterinário é obrigado a notificar o Estado quando comprovada a doença. Isso se chama notificação compulsória.

PREVENÇÃO

A famosa vacina é sim a melhor forma de prevenir essa doença letal tanto para os animais como para o homem e tem excelente eficácia.

Campanhas de vacinação introduzidas no Brasil são responsáveis pelo decréscimo da doença nas áreas urbanas do país, entretanto o número de gatos vacinados é muito inferior ao de cães nas campanhas, tanto pela falsa crença de que apenas o cão necessita da vacina quanto pela dificuldade de levar os gatos a essas campanhas.

As campanhas são sempre locais de muito barulho e latidos o que estressam demais os bichanos e faz com que muitos proprietários não levem seus gatos até esse tipo de local. Colocar o gato dentro de caixas de transporte, mochilas, sacolas e caixas de papelão ajudam a minimizar o estresse. Nunca leve seu gato a esses locais na coleira, a não ser que ele esteja muito habituado a isso.

Perdeu o prazo da campanha na sua cidade? Seu gato tem direito a receber a vacina gratuitamente no Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) durante todo ano.

O que é importante salientar mais uma vez é que gatos que vivem em apartamento precisam SIM serem vacinados e, caso você não queira levar às campanhas, deve ser providenciada vacinação em clínica veterinária particular. Nesses casos seu gato irá receber uma carteirinha ou atestado de vacinação com adesivo da vacina, data, carimbo e assinatura do veterinário.

O QUE FAZER SE SEU GATO FOR MORDIDO?

Os gatos podem ser mordidos por outros gatos, por cães e, como dito, por morcegos. Nesses casos mesmo os que já são vacinados devem receber a vacina antirrábica e ficarem em observação quanto aos sintomas de raiva.

O QUE FAZER SE UMA PESSOA FOR MORDIDA POR UM GATO?

O gato deve ficar em observação por 10 dias, mesmo os vacinados, e não deve receber vacina nesse período.

A pessoa mordida deve procurar um hospital para receber as orientações e tratamento adequados para prevenção da raiva. Para humanos existem vacinas chamadas pós-infecção, ou seja, são aplicadas após a mordedura. Além disso, existem as vacinas para humanos chamadas de pré-infecção, ou seja, para serem aplicadas antes da pessoa ser mordida, mas somente pessoas que trabalham com o risco devem receber essa vacina, como veterinários, biólogos ou médicos que atuam na área.

Essas informações não devem ser interpretadas como forma de diagnóstico. Nunca medique seu gato sem orientação veterinária.

Dra. Laila Massad Ribas

Fonte da imagem: http://www.dkimages.com/

Laila Massad Ribas

Laila Massad Ribas

Possui formação acadêmica em veterinária, especialização em medicina felina e mestrado e doutorado pela USP.