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Gatos x reforma em casa: como evitar problemas?

Atualmente é difícil encontrar alguém que nunca tenha feito uma reforma em casa e, por diversas razões, continuou morando na obra. Por vezes, os prazos não são cumpridos, seja por motivos de quem realiza seja porque foram surgindo novas ideias pelo caminho, quase que interminável, das reformas. O que poucas pessoas se preocupam é com o bem-estar dos gatos que também continuam morando na casa ou apartamento, mas que por serem pequenos, podem ser alvos mais suscetíveis de problemas de saúde.

Problemas respiratórios

Os problemas respiratórios costumam ser os mais comuns nessas situações, especialmente nos gatos asmáticos, pois a quantidade de poeira é sempre acima do tolerado por eles, isso porque a poeira é considerada um agente alergênico, ou seja, ela é causadora de alergias. O principal sintoma, nesses casos, é a tosse, sendo a falta de ar observada nos casos mais graves. É relativamente comum o surgimento dos sintomas alguns dias após o início das obras, especialmente na fase de demolição ou lixamento de paredes que também libera poeira. Alguns animais mais sensíveis podem apresentar  esse sintoma mesmo quando a obra não é dentro da própria casa, mas na de um vizinho, por exemplo.

Problemas dermatológicos

As doenças de pele decorrentes de reformas podem ocorrer também por causa da poeira, mas são menos frequentes. Entretanto, quando ocorrem, causam coceira intensa por todo corpo, podendo confundir facilmente com outras doenças dermatológicas. A contaminação da pele pelo trauma das unhas durante as coceiras pode, infelizmente, causar infecções secundárias por bactérias, o que necessita de cuidados mais intensos no tratamento.

Além disso, é preciso atenção às intoxicações por contato da pele com produtos oriundos da reforma. Na fase de pintura não é raro o surgimento de problemas, porém nem sempre a tinta é a grande vilã. Isso porque hoje em dia existem diversas tintas à base de água, com níveis de toxicidade bem baixos, mas o que é relativamente frequente são as intoxicações por solventes de tinta. Esses produtos são muito voláteis, ou seja, eles evaporam com facilidade e causam intoxicações graves quando inalados ou em contato prolongado com a pele. Apesar de parecer absurdo, algumas pessoas acabam passando solvente nos gatos que se sujam de tinta durante as reformas e isso pode levar até a morte do animal se não tratado com rapidez. Os animais com esse tipo de intoxicação apresentam salivação intensa, tremores no corpo e/ou nos olhos, convulsões e até morte subida. Além disso, a utilização de ácidos para remoção de cimentos ou rejunte nos pisos é bastante comum ao término das obras e em contato com a pele dos gatos pode causar queimaduras graves.

Problemas gastro-intestinais

Problemas com ingestão de corpo-estranho não é tão frequente quanto nos cães, mas pode causar sérios riscos à vida do gato. Nessa fase de obras em casa é comum que diversos materiais fiquem espalhados pelo chão, como fios de nylon, fios de linha, casca de tinta de parede, lascas de madeira, etc. Gatos que possuem o hábito de engolir objetos estranhos são alvos fáceis de complicações intestinais nessas situações. Outros gatos não tão atrevidos em engolir corpos-estranhos podem se machucar externamente com objetos cortantes como pregos, pontas de ferro e cacos de vidro comumente espalhados pela casa.

Traumas físicos

Outra situação que pode causar danos aos gatos são os traumas físicos causados pelas obras em casa. Por gostarem muito de locais mais altos, os andaimes podem ser um perigo para os bichanos, pois não possuem proteção lateral e, muitas vezes, não estão firmemente presos. Essas instalações são sempre provisórias, ou seja, os gatos não estão habituados com os andaimes e podem sim cair de grandes alturas. Além disso, eles podem servir como uma rota de fuga que antes não existia. Gatos que moram em casas com muros altos e não têm acesso à rua podem acabar fugindo utilizando os andaimes como escada para o telhado ou uma árvore próxima.

Estresse

Além dos danos físicos que as obras podem causar nos felinos, o trauma psicológico é um assunto extremamente sério e deve ser levado em consideração. Pessoas que têm cães em casa podem notar que a presença de estranhos na casa pode até ser diversão para algumas raças, mas para os gatos é quase certo que o estresse permanecerá por toda obra.

Os gatos são animais semi-sociais, quase todos não gostam de pessoas estranhas em casa, ainda mais quando o barulho da reforma vem junto com essas pessoas. É praticamente impossível fazer uma reforma em casa com silêncio. Martelo, maquita, furadeira, dentre outros, causam um desconforto significativo nos felinos. Quem já passou por isso relata que os gatos perdem o apetite e passam a maior parte do dia entocados dentro de um armário ou gaveta. O nível de estresse é altíssimo para esses animais e os tutores devem ficar atentos a esses comportamentos.

Uma das manifestações mais comuns do estresse prolongado é a cistite intersticial ou cistite idiopática. Essa doença pode se manifestar em qualquer gato, especialmente nos mais ariscos e medrosos. A cistite é uma inflamação da bexiga urinária e os sintomas são: sangue na urina com ou sem dor ao urinar e urina fora do lugar, com ou sem gotejamento. O tutor deve ficar alerta, mesmo algumas semanas após o término da reforma, pois a manifestação costuma ser tardia.

Outros problemas relacionados ao estresse envolvem lambedura compulsiva da pelagem, podendo ou não arrancar os pelos do corpo. O gato que apresenta a chamada dermatite psicogênica costuma apresentar falhas na pelagem, especialmente no dorso, laterais do corpo e barriga. Essa é uma enfermidade de difícil diagnóstico e pode ser confundida com processos alérgicos, também comum nas épocas de poeira em casa.

Prevenção

Apesar da gravidade que a situação pode ter, existem diversas maneiras de minimizar os problemas com os bichanos durante as reformas. Você pode decidir se mantém ou não o gato na mesma casa durante essa fase. Caso opte por retirá-lo é recomendado que ele fique na casa de alguém que já conhece e evitar os hotéis mistos (que mantém cães também).

Se não for possível retirar o gato de casa, separe um cômodo que não está sendo reformado para locar o gato durante o período de reforma. O cômodo não precisa ser grande, pode até mesmo ser um banheiro, mas deve ser totalmente fechado ou com telas nas janelas, para evitar fugas nos momentos de medo. Verifique a quantidade de pó no local todos os dias e providencie limpeza diária para evitar episódios de asma ou coceira. Deixe no mesmo local uma caminha e/ou toca, caixa sanitária, arranhador e vasilhas com água e comida. Se você possui muitos gatos, cuidado com as brigas, pois o estresse pode desencadear desentendimentos entre os mais ariscos.

Na hora de escolher as tintas prefira aquelas à base de água, pois são facilmente removidas da pelagem. Caso o gato se suje em alguma parede recém pintada nunca aplique solvente nos animais e em caso de contato da pele do animal com tinta à base de óleo, solvente ou qualquer produto supostamente tóxico, leva-lo imediatamente ao veterinário para tratamento e remoção adequada dos produtos da pelagem. Da mesma maneira deve proceder se o gato apresentar tosse ou coceira durante os dias de obra. Não é recomendado medicar o animal sem a prescrição de um veterinário.

Se o gato apresentar vômitos e/ou dificuldade de engolir os alimentos a atenção deve ser redobrada, pois ele pode ter engolido um objeto oriundo da reforma. Nesse caso também deve ser levado ao veterinário e comunicar sobre a obra que está sendo realizada em casa.

Essas informações não devem ser interpretadas como forma de diagnóstico. Procure sempre um veterinário!

Dra. Laila Massad Ribas

Esta matéria você também pode ler na versão impressa da revista Pulo do Gato!

Laila Massad Ribas

Laila Massad Ribas

Possui formação acadêmica em veterinária, especialização em medicina felina e mestrado e doutorado pela USP.