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Leucemia viral felina (FeLV)

Há exatos 50 anos um pesquisador chamado William Jarrett da Universidade de Glasgow na Escócia descobriu o agente causador da Leucemia felina, o chamado FeLV, um retrovírus que causava linfomas nos gatos e que passou a ter grande importância na medicina veterinária felina.

Atualmente diversos estudos são publicados sobre Leucemia felina e já sabemos que é uma doença fatal e causadora de, não só leucemias, como o nome diz, mas de linfomas, anemias e imunodeficiências. O Gammaretrovírus, como é hoje em dia chamado, possui quatro subtipos de vírus: A, B, C e T. Os subtipos B, C e T são mutações do A.

  • O subtipo A está presente em todos os gatos positivos para FeLV e está associado a linfomas e leucemias;
  • O subtipo B ocorre junto com o A em 50% das vezes e também está associado à formação de linfomas e leucemias. Sozinho não causa doenças.
  • O subtipo C está associado à anemia crônica
  • O subtipo T está associado à imunossupressão (queda do número de células de defesa, febre e diarreia).

Felizmente o número de gatos com essas doenças está decaindo desde sua descoberta em 1964, mas estudos no Brasil mostram que a prevalência em gatos doentes é próxima de 8% em São Paulo e 17% no Rio de Janeiro.

Gatos jovens (entre 3 e 6 anos) e/ou que têm acesso à rua são os que apresentam maior risco de infecção, mas qualquer animal desta espécie pode adquirir o vírus FeLV.

TRANSMISSÃO

A Leucemia pode ser transmitida através de contato direto entre os gatos, especialmente contato com secreções corporais, como saliva, urina, fezes e leite (amamentação). Gatinhas gestantes também transmitem aos fetos o FeLV e isso geralmente causa abortamento.

Vasilhas, caminhas, caixas sanitárias e outros pertences do gato podem servir de fonte de transmissão de um gato para outro, mesmo que não haja contato direto com um gato doente.

MECANISMO DE AÇÃO

Existem quatro fases de infecção da Leucemia viral felina: abortiva, regressiva, latente e progressiva:

  • Abortiva: nesta fase o gato que foi exposto ao vírus produz um sistema imunológico bem efetivo que inibe a multiplicação viral em suas células. Se testado para FeLV este gato terá um resultado negativo;
  • Regressiva: nesta fase da infecção a multiplicação viral é limitada. O gato ainda é negativo para os testes sorológicos de FeLV, mas exames de DNA, como o PCR (reação em cadeira da polimerase) pode detectar o vírus. Ainda é possível que o gato se cure nesta fase, pois pode eliminar toda carga viral;
  • Latente: uma quantidade moderada de vírus está presente no gato nesta fase, mas eles ainda são soro-negativos (positivos apenas para o teste PCR). Apesar de grandes as chances de desenvolver a doença, o gato ainda não transmite FeLV para outros gatos;
  • Progressiva: aqui o gato não consegue mais eliminar o vírus e tanto em testes sorológicos, quanto PCR o resultado será positivo. Nesta fase o gato já é capaz de transmitir o vírus para outros gatos e tem grandes chances de adoecer.

SINTOMAS

Gatos portadores do FeLV podem passar anos sem apresentarem sintomas e estes irão depender do subtipo de vírus que está presente. Com isso a variedade de sintomas encontrados é bem grande, mas queda do número de células vermelhas (anemia) e brancas (leucopenia) são frequentemente achados em gatos com FeLV. O micoplasma (parasita de hemácias causador de anemia) pode estar presente nestes animais.

Gatos que desenvolvem linfomas terão sintomas de acordo com a localização deste tipo de câncer, que pode ocorrer no mediastino, no trato gastro-intestinal, nos linfonodos (gânglios) ou até rins, pele e sistema nervoso.

Devido ao fator imunossupressor presente em alguns animais, outras doenças concomitantes podem ocorrer, principalmente infecções virais e bacterianas.

Além destes sintomas descritos, é possível que o gato portador de FeLV tenha alterações neurológicas, como paralisia, incontinência urinária e alterações no tamanho da pupila.

DIAGNÓSTICO

O teste mais comum para diagnosticar FeLV é o chamado ELISA, que neste caso detecta a uma proteína do vírus nas células do gato (em algumas doenças, como FIV o ELISA detecta apenas o anticorpo e não o vírus em si). Geralmente este teste é feito junto com o de FIV e, infelizmente existe uma porcentagem de gatos que é positiva para ambos os vírus.

O teste ELISA tem grandes vantagens, dentre elas o preço, mas pode dar resultados falso negativos, dependendo do estágio da infecção (menos de 4 semanas de contágio).

Um teste chamado imunofluorescência direta pode ajudar quando há dúvidas quanto ao resultado do ELISA e em último caso pode-se realizar um teste de DNA, o chamado PCR. Em geral este último exame só é recomendado quando há controvérsias entre os testes ELISA e imunofluorescência, quando um gato vai doar sangue ou quando a sorologia é negativa, mas há grandes suspeitas de FeLV pela presença, por exemplo de linfoma.

QUEM DEVE SER TESTADO?

Pela Associação Americana de Praticantes Felinos todos os gatos deveriam ser testados contra FeLV. Quando isso não é possível é recomendado que se teste nos seguintes casos: gatos de abrigo ou ONG que serão doados, fêmeas gestantes ou recém-paridas, gatos com doenças suspeitas, como anemia, linfoma e leucemia, gatos que foram mordidos por outro gato e gatos que o proprietário deseja vacinar.

TRATAMENTO

Devido a presença de doenças concomitantes ao FeLV é fundamental identificar e tratar estas doenças, como transfusões de sangue nos gatos com anemia grave ou quimioterapia nos que têm câncer associado.

Alguns estudos com fármacos que estimulam o sistema imunológico, os imunomoduladores, têm sido realizados, sendo que resultados satisfatórios e insatisfatórios já foram publicados quanto à melhora de sintomas e progressão da doença.
Antirretrovirais também podem ser usados, mas podem desencadear efeitos colaterais e aqui no Brasil está cada vez mais difícil o acesso a estes medicamentos.

PREVENÇÃO

No Brasil há disponibilidade de vacinar os gatinhos contra FeLV, mas estes animais devem ser testados antes da vacinação, pois animais positivos não devem ser vacinados.

Se um gato é vacinado, mas o proprietário não sabe ele pode ser submetido ao teste sorológico, pois a vacina não interfere neste tipo de resultado.

Quando um gato é positivo e ele possui contactantes na mesma casa, estes animais devem ser isolados e testados. Mesmo o resultado sendo negativo devem ser testados novamente num período de 60 dias, para que se tenha certeza que não adquiriram FeLV.

Sabe-se que gatos que têm acesso à rua têm muito mais chances de contrair Leucemia viral felina do que os que moram dentro de casa, por isso manter o gato indoor é uma das melhores maneiras de evitar a contaminação.

PROGNÓSTICO

Apesar de ser uma doença grave, alguns gatos podem ter contato com o vírus e não desenvolverem doenças. Infelizmente quando ocorre o desenvolvimento o prognóstico é reservado e gatinhos FIV positivos costumam ter uma sobrevida maior do que os FeLV positivos.

Estas informações não devem ser usadas como diagnóstico. Nunca medique seu gato sem orientação veterinária.

Dra. Laila Massad Ribas

Laila Massad Ribas

Laila Massad Ribas

Possui formação acadêmica em veterinária, especialização em medicina felina e mestrado e doutorado pela USP.