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Clipnosis – ténica de contenção felina

Há muitos anos pesquisadores estudam um fenômeno conhecido como hipnose animal, que é um comportamento de imobilização e dessensibilização que os animais apresentam em diferentes situações, geralmente quando são ameaçados por um predador. Esse fenômeno já foi observado em insetos, pássaros e mamíferos, mas em cada animal ele ocorre de uma maneira diferente e, por isso recebia diversos nomes além da hipnose, como feitiçaria, captura comportamental e encantamento.

Nos gatos, esse fenômeno acontece quando uma gata abocanha seus filhotes pela nuca para transportá-los ou retira-los de situações de perigo, eles apresentam um comportamento semelhante à hipnose, chamada de resposta da nuca, por especialistas. Nessa situação, a cauda dos filhotes se enrola entre as pernas, o corpo se curva para frente e as perninhas traseiras se encolhem, ficando praticamente imobilizados. Dessa maneira acredita-se que os filhotes facilitam o transporte pela mãe que, em fuga, conseguiria escapar mais rapidamente.Os pesquisadores notaram que, nos gatos filhotes pegos pela mãe, o processo é diferente do chamado hipnose animal, por isso devemos evitar dizer que nos gatos esse fenômeno seja chamado de hipnose.

A partir deste conceito, criou-se a ideia de induzir nos pets esse comportamento para tentar facilitar manuseá-los. Primeiramente estudado em camundongos, coelhos e porquinhos-da-índia e mais recentemente em gatos. A palavra clipnosis (se diz clipnousis), união das palavras clip (grampo) e hypnosis (hipnose) é o termo informal em inglês que define prender a pele da nuca do gato com um clipe de maneira a deixa-lo mais tranquilo para a realização de alguns procedimentos de manejo.

TÉCNICA DA TRANQUILIDADE

A Universidade de Ohio nos Estados Unidos realizou um estudo sobre essa técnica colocando clipes de papel na nuca dos gatos durante algumas manobras de manejo. Os materiais foram os mesmos utilizados para prender grandes quantidades de papel. Os pesquisadores observaram que os gatos que receberam os clipes apresentaram a mesma resposta da nuca que os filhotes quando pegos pela mamãe, e descobriram que, além de facilitar o transporte, também ficavam mais calmos e menos amedrontados quando examinados por veterinários e até ronronaram.

Apesar dos clipes poderem ser colocadas ao longo de toda parte de trás da coluna, os pesquisadores observaram melhor resposta quando prendidos apenas na nuca.

Ainda não se sabe se a pressão possui alguma correlação ou não com pontos de acupuntura. Ao contrário do que muitos imaginam, os gatos não se sentiram ameaçados ou amedrontados, pois suas pupilas não dilataram e seus batimentos cardíacos não aumentaram, o que aconteceria em um momento de estresse. O estudo considerou a técnica segura quanto à dor e não foram observadas alterações neurológicas nos gatinhos.

Por fim, os pesquisadores resolveram criar um nome mais adequado à técnica do que hipnose e a chamaram de Inibição Comportamental Induzida por Beliscão ou Pinch-Induced Behavioral Inhibition (PIBI). Isso porque ela representa não somente o comportamento em si, mas a técnica empregada no animal. Além disso, os gatos não ficam totalmente imobilizados, como ocorre em alguns animais, daí o termo “inibição” e não hipnose.

DIFERENTES COMPORTAMENTOS

Como dito anteriormente outros animais também apresentam comportamentos com intuito de sobrevivência, porém é importante diferencia-los dessa reação descrita nos felinos. Existem situações em que o animal apresenta um estado de total imobilidade e ausência de reflexos representadas pelo medo de morrer. Alguns animais, como porquinhos-da-Índia, patos, coelhos, pombos, galinhas, raias e iguanas podem apresentar esse estado de “paralisia” como defesa a um ataque, já que predadores não gostam de caçar animais totalmente imobilizados, pois pode significar que estão mortos há algum tempo. Esse estado de “paralisia”, portanto, aumenta as chances de sobreviver a um ataque.

A resposta da nuca nos gatos, quando aplicada à técnica de clipnosis, não deve ser confundida com esse estado de imobilidade em situações de medo. Os gatos adultos também têm essa reação dos filhotes ao serem carregados pela mamãe. É como um reflexo que permanece mesmo na maturidade, fazendo-os se sentirem relaxados e protegidos.

VANTAGENS E RISCOS DA TÉCNICA

Em casa os tutores podem se beneficiar do clipnosis em situações que o gato costuma se estressar, como corte de unhas, escovação dos dentes, limpeza das orelhas, dentre outras. Médicos veterinários a utilizam para examinar ou tratar gatos ariscos ou aplicar injeções. Apesar do tutor ou veterinário poder pegar o gato pela pele da nuca com uma das mãos sem machucá-lo, os pesquisadores de Ohio relatam que o uso de clipes é menos agressivo e mais efetivo. Além disso, com o clipe a pessoa fica com as duas mãos livres para manipular o gato.

clipnosis

No Brasil já existe um clipe especialmente desenvolvido para isso, à venda em sites. Apesar de o tutor poder utilizar qualquer clipe para aplicar a técnica, o uso do clipe comercial é recomendado, pois ele aplica uma força adequada na nuca sem machucar. É possível que outro material possa ferir a pele ou prejudicar a circulação de sangue no local. Quando realizado o estudo descrito, os cientistas mediram a força que o clipe aplicava na pele para prevenir danos, o que provavelmente não será feito em casa.

Outro cuidado que o tutor deve ter é quanto ao tempo de uso, que não deve ultrapassar alguns minutos. Assim que o procedimento de manejo acabar, o clipe deve ser removido para evitar também os problemas citados acima, nunca deixando o gato sozinho com o pegador.

Uma dica importante é que o clipe apresenta muito mais resultado quando colocado no gato ainda calmo, ou seja, ele serve como preventivo. Utiliza-lo depois que outras tentativas de contenção foram frustradas pode não dar certo e o indicado é colocá-lo antes que o bichano fique muito nervoso.

O tutor também deve estar ciente de que cada animal reage de uma maneira com essa técnica, além do que clipnosis não significa imobilizar completamente o pet. Com isso é importante saber que alguns gatinhos ainda assim podem arranhar ou morder quem o estiver manipulando.

ESTUDOS EM HUMANOS

No Japão, alguns cientistas resolveram estudar esse fenômeno em humanos e descobriram que, assim como em alguns animais, os bebês também ficam mais calmos quando pegos pelas mamães. Naturalmente os humanos não mordem a nuca dos bebês para transporta-los, mas ao carregarem seus filhos no colo, ocorre algo semelhante, os batimentos cardíacos diminuem e o choro tende a parar. Para quem já tem filhos o resultado dessa pesquisa pode não ser novidade, mas ela ajuda a entender mais ou menos como funciona o mecanismo de sobrevivência na natureza.

Em situações de estresse fica muito mais fácil fugir com filhotes (ou filhos) que facilitem o carregamento e não ficam se mexendo ou pulando.

Dra. Laila Massad Ribas

Você também confere essa matéria na Revista Pulo do Gato Ed. 88, Abril 2015, p.66.

Referências bibliográficas:

Pozza, et al. Pinch-induced behavioral inhibition (‘clipnosis’) in domestic cats Journal of Feline Medicine & Surgery. Volume 10, Issue 1, February 2008, Pages 82–87.

Esposito, et al. Infant Calming Responses during Maternal Carrying in Humans and Mice. Current Biology 23, 739–745, May 6, 2013.

Imagens: www.gralenco.com e www.kvpvet.com

Laila Massad Ribas

Laila Massad Ribas

Possui formação acadêmica em veterinária, especialização em medicina felina e mestrado e doutorado pela USP.