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A criança e o gato

“A criança acorda cedo pela mãe que leva seu leite quentinho para ser tomado ainda na cama. O gato ainda não quer acordar essa hora, então resmunga um pouquinho, cobre a orelha com sua pata e volta a dormir mais um pouco. Os dois dormem juntos há muito tempo, mas nem sempre foi assim.

O gato chegou antes, filho único, mimado pelos pais humanos como todo gato de sorte. Chegou naquela casa ainda pequeno, sujo, pelos eriçados e magro. Sua mãe humana o encontrou embaixo de um caminhão e não pensou duas vezes antes de levá-lo para casa. O pai humano não gostou da ideia, mas aceitou calado como quase sempre.

O tempo passou e o gato conquistou seu território. Marcou cada cantinho com seu odor e nada o aborrecia. Tinha comida farta e fácil, tinha caminha quentinha e caixas de papelão. Todos os dias acordava tarde e dormia cedo, sua rotina de comer, dormir e brincar não podia ser abalada por nada.

Até que um dia veio a notícia. Mamãe humana ganharia um bebê. O gato não se importou, não sabia o que era bebê, nunca ouvira essa palavra então deu um pequeno miado e pediu mais um petisco, só para variar o cardápio da manhã.

Mais algum tempo não calculado e o famoso bebê chegou em casa. O gato desconfiou, olhou de canto e não miou. Se aproximou do pacotinho e esticou o pescoço para alcançar a criança. Tinha cheiro de leite, mas não era bom, não como o leitinho do pires que mamãe colocava todas as manhãs. Então o gato se afastou e resolveu não pensar naquilo por um tempo.

Mas as coisas não eram mais como antes. O bebê gritava muito, especialmente à noite. Papai e mamãe não atendiam mais aos pedidos do gato com tanta frequência. O leitinho nem sempre vinha tão quente e a casa estava uma bagunça. Roupas pela sala, sapatos jogados e visitas a toda hora. Nada mais perturbava o gato do que visitas. Elas falavam alto e tinha um cheiro estranho. Passavam direto pelo gato e corriam para o bebê empacotado. Qual a graça desse bebê? Perguntava o gato.

O bebê cresceu um pouco e mamãe e papai resolveram deixa-lo andar no chão. Ele andava como o gato, com as quatro patas no chão. Estranho, mas divertido. Pela primeira vez o gato se interessou pela criança, exceto quando seus pelos eram arrancados em tufo quando estava dormindo no sofá.

A criança brincava com o gato, jogava bolinha e dava gargalhada. Cada pulo do gato era um sorriso e o gato apreciava o carinho. Com o tempo o gato parou de ser puxado pela criança. Começou a ganhar carinho de um jeito desajeitado, mas gostoso.

Um dia o gato resolveu subir na cama da criança. Papai não gostou, mas mamãe explicou alguma coisa que o convenceu. A criança não sorria. Estava quente e quieta. De tempos em tempos tomava um líquido de cheiro ruim e chorava com isso. O gato se preocupou. Percebeu a angustia dos pais e a movimentação incomum durante a noite. Mas depois de algumas horas os pais adormeceram e a criança também.

O gato permaneceu ao seu lado, bem encostadinho nos braços, mas acordou assustado. A criança estava quente demais, não se mexia. Com medo o gato pulou da caminha e começou a miar. Acordou seus pais com patadas no rosto e miados. Primeiramente foi expulso com um empurrão e um resmungo, mas não desistiu até que mamãe levantou. O gato miou e andou até o quarto da criança que queimava em febre. Mamãe percebeu o aviso e tomou a criança nos braços.

Saíram correndo com ela para fora da casa. O gato esperou. Não sabia onde tinham ido, nem se voltariam, mas esperou sentado na sala sem deitar, sem beber, sem comer. Pela primeira vez na vida, o gato sentiu medo.

Pela manhã os três retornaram mais calmos. A criança não estava mais quente e dormia nos braços do papai, que a colocou em sua caminha e chamou o gato. Ele pulou rapidamente ao seu lado e se enrolou como uma bolinha. Papai fez um carinho atrás de suas orelhas e disse alguma coisa ao gato, que não entendeu, mas compreendeu. Não sairia mais dali, permaneceria por todos os dias de sua vida ao lado da criança.

A criança acorda cedo pela mãe que leva seu leite quentinho para ser tomado ainda na cama. O gato ainda não quer acordar essa hora, então resmunga um pouquinho, cobre a orelha com sua pata e volta a dormir mais um pouco. A criança levanta e chama o gato. Ele sente preguiça, mas não resiste ao chamado. Está na hora da bolinha e ele não perde esse momento por nada.”

Para todas as crianças e todos os gatos, feliz dia das crianças!

Dra. Laila Massad Ribas

Laila Massad Ribas

Laila Massad Ribas

Possui formação acadêmica em veterinária, especialização em medicina felina e mestrado e doutorado pela USP.